CAPÍTULO 1
Companheiros de Viagem
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próximo ao aquecedor. Mas também percorreu o apartamento de tempos em tempos, pulando e
arranhando tudo o que encontrava. Havendo, a princípio, ignorado o manequim que estava no canto,
passou a achá-lo um brinquedo atraente. Não me importei. Ele poderia fazer o que quisesse com
ele.
Eu sabia que os laranjinhas podiam ser muito ativos e que aquele ali tinha um monte de energia
acumulada e reprimida. Quando tentei acariciá-lo, ele pulou e começou a me dar patadas. Em dado
momento, ficou bastante animado, arranhando-me furiosamente e quase cortando minha mão.
— Ok, companheiro, calma aí — eu disse, tirando-o de cima de mim e colocando-o no chão.
Sabia que machos jovens que não haviam sido castrados podiam se tornar extremamente ativos.
Meu palpite é que ele ainda estava “inteiro” e no auge da puberdade. Não podia ter certeza, é
claro, mas aquilo evidenciou novamente a incômoda sensação de que ele devia ter vindo das ruas,
e não de um lar.
Passei a noite assistindo à televisão, com o laranjinha enrolado próximo ao aquecedor,
aparentemente contente por estar ali. Ele somente se moveu quando fui para a cama, levantando-se
e seguindo-
-me até o quarto, onde se enrolou numa bola próxima a meus pés, na borda da cama.
Ouvindo seu ronronar suave no escuro, senti-me bem por tê-lo ali. Era uma companhia, eu acho.
Não tinha muito disso ultimamente.
No domingo, pela manhã, levantei-me razoavelmente cedo e decidi andar pelas ruas para ver se
conseguia encontrar o dono dele. Imaginei que alguém poderia ter fixado algum cartaz de “Gato
Perdido”. Quase sempre havia um apelo pela devolução de um animal de estimação desaparecido,
em fotocópia, colado nos postes, quadros de avisos e até mesmo pontos de ônibus. Parecia haver
tantos bichanos perdidos que em alguns momentos eu me perguntava se havia uma gangue de
sequestradores de gatos agindo na área.
Só para o caso de encontrar o proprietário rapidamente, levei o gato comigo, prendendo-o a
uma guia que havia feito com um cadarço, a fim de mantê-lo seguro. Ele ficou feliz em andar a meu
lado enquanto descíamos as escadas rumo ao térreo.
Fora do prédio, o gato começou a puxar a corda como se quisesse ir para um canto. Imaginei
que desejasse fazer suas necessidades. Tal como pensei, dirigiu-se para um trecho de vegetação e
arbustos adjacentes a um prédio vizinho e desapareceu por um ou dois minutos para atender ao
chamado da natureza. Depois disso, voltou até mim e, feliz, para a guia.
Ele deve mesmo confiar em mim, pensei comigo mesmo. Senti imediatamente que precisava
retribuir essa confiança e tentar ajudá-lo.
Minha primeira parada foi a senhora que morava do outro lado da rua. Ela era conhecida na
região por cuidar de gatos. Alimentava os animais vira-latas da vizinhança e os castrava, se
Um Gato de rua chamado Bob
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Capítulo 1 \ Página 3
CAPÍTULO 1
Companheiros de Viagem
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Decidi-me imediatamente.
— Ok, companheiro, você vem comigo — disse, caçando em minha mochila a caixa de
biscoitos que carregava especificamente para dar guloseimas aos gatos e cães que sempre se
aproximavam de mim quando estava fazendo apresentações de rua.
Chacoalhei-a diante dele e ele imediatamente se pôs de pé nas quatro patas e me seguiu.
Notei que ele ficou um pouco desconfortável em pé e que movimentava uma das patas traseiras
de forma estranha. Por isso, subimos bem lentamente os cinco lances de escadas. Poucos minutos
depois, estávamos confortavelmente abrigados em meu apartamento.
O lugar estava estropiado, preciso admitir. Além da televisão, tudo que eu tinha era um sofácama
de segunda mão, um colchão no canto do pequeno quarto e, na cozinha, uma geladeira que
trabalhava apenas na metade do tempo, um micro-ondas, uma chaleira e uma torradeira. Não havia
fogão. As únicas outras coisas no apartamento eram meus livros, vídeos e bugigangas.
Sou meio acumulador de tralhas; pego todo tipo de coisas da rua. Naquela época, tinha um
parquímetro quebrado em um canto e um manequim quebrado com um chapéu de vaqueiro em outro.
Um amigo certa vez chamou meu apartamento de “A Velha Loja de Curiosidades”. Mas, enquanto
investigava o novo ambiente, a única coisa pela qual o laranjinha ficou curioso foi a cozinha.
Peguei um pouco de leite da geladeira, derramei em um pires e misturei com um pouco de
água. Eu sei que — ao contrário da opinião popular — o leite pode ser algo ruim para gatos
porque, na verdade, eles são intolerantes à lactose. Mas ele bebeu tudo em segundos.
Eu tinha um pouco de atum na geladeira, então, misturei-o com alguns biscoitos esmagados e
dei isso a ele também. Novamente, ele devorou. Pobrezinho, deve estar mesmo morrendo de fome,
pensei comigo mesmo.
Após o frio e a escuridão do corredor, o apartamento era um luxo tipo cinco estrelas no que
dizia respeito às aspirações do laranjinha. Ele parecia muito feliz por estar ali e, depois de ser
alimentado na cozinha, dirigiu-se para a sala de estar e enrolou-se no chão, perto do aquecedor.
Sentei-me e, à medida que o observava com mais cuidado, tive certeza absoluta de que havia
algo errado com sua perna. Tal como pensara, quando me sentei no chão a seu lado e comecei a
examiná-lo, descobri que ele tinha um grande abscesso na parte de trás da perna traseira direita. A
ferida tinha o tamanho de um grande dente canino, o que me deu uma boa ideia de como ele a
conseguira. Provavelmente, fora atacado por um cão, ou talvez por uma raposa, que cravara os
dentes em sua perna e agarrara-se a ele quando ele tentou fugir. Ele também tinha vários arranhões
— um na face, não muito longe do olho, e outros no tronco e nas pernas.
Esterilizei a ferida da melhor forma que pude, dando-lhe um banho na banheira e depois
passando um pouco de creme hidratante sem álcool ao redor da ferida e um pouco de vaselina
sobre ela. Muitos outros gatos teriam aprontado um caos por serem tratados assim, mas ele foi
excelente.
Passou a maior parte do restante do dia enrolado naquele que já era seu local preferido,
Companheiros de Viagem
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Decidi-me imediatamente.
— Ok, companheiro, você vem comigo — disse, caçando em minha mochila a caixa de
biscoitos que carregava especificamente para dar guloseimas aos gatos e cães que sempre se
aproximavam de mim quando estava fazendo apresentações de rua.
Chacoalhei-a diante dele e ele imediatamente se pôs de pé nas quatro patas e me seguiu.
Notei que ele ficou um pouco desconfortável em pé e que movimentava uma das patas traseiras
de forma estranha. Por isso, subimos bem lentamente os cinco lances de escadas. Poucos minutos
depois, estávamos confortavelmente abrigados em meu apartamento.
O lugar estava estropiado, preciso admitir. Além da televisão, tudo que eu tinha era um sofácama
de segunda mão, um colchão no canto do pequeno quarto e, na cozinha, uma geladeira que
trabalhava apenas na metade do tempo, um micro-ondas, uma chaleira e uma torradeira. Não havia
fogão. As únicas outras coisas no apartamento eram meus livros, vídeos e bugigangas.
Sou meio acumulador de tralhas; pego todo tipo de coisas da rua. Naquela época, tinha um
parquímetro quebrado em um canto e um manequim quebrado com um chapéu de vaqueiro em outro.
Um amigo certa vez chamou meu apartamento de “A Velha Loja de Curiosidades”. Mas, enquanto
investigava o novo ambiente, a única coisa pela qual o laranjinha ficou curioso foi a cozinha.
Peguei um pouco de leite da geladeira, derramei em um pires e misturei com um pouco de
água. Eu sei que — ao contrário da opinião popular — o leite pode ser algo ruim para gatos
porque, na verdade, eles são intolerantes à lactose. Mas ele bebeu tudo em segundos.
Eu tinha um pouco de atum na geladeira, então, misturei-o com alguns biscoitos esmagados e
dei isso a ele também. Novamente, ele devorou. Pobrezinho, deve estar mesmo morrendo de fome,
pensei comigo mesmo.
Após o frio e a escuridão do corredor, o apartamento era um luxo tipo cinco estrelas no que
dizia respeito às aspirações do laranjinha. Ele parecia muito feliz por estar ali e, depois de ser
alimentado na cozinha, dirigiu-se para a sala de estar e enrolou-se no chão, perto do aquecedor.
Sentei-me e, à medida que o observava com mais cuidado, tive certeza absoluta de que havia
algo errado com sua perna. Tal como pensara, quando me sentei no chão a seu lado e comecei a
examiná-lo, descobri que ele tinha um grande abscesso na parte de trás da perna traseira direita. A
ferida tinha o tamanho de um grande dente canino, o que me deu uma boa ideia de como ele a
conseguira. Provavelmente, fora atacado por um cão, ou talvez por uma raposa, que cravara os
dentes em sua perna e agarrara-se a ele quando ele tentou fugir. Ele também tinha vários arranhões
— um na face, não muito longe do olho, e outros no tronco e nas pernas.
Esterilizei a ferida da melhor forma que pude, dando-lhe um banho na banheira e depois
passando um pouco de creme hidratante sem álcool ao redor da ferida e um pouco de vaselina
sobre ela. Muitos outros gatos teriam aprontado um caos por serem tratados assim, mas ele foi
excelente.
Passou a maior parte do restante do dia enrolado naquele que já era seu local preferido,
Capítulo 1 \ Página 2
CAPÍTULO 1
Companheiros de Viagem
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calma e imperturbável. Parecia estar muito bem acomodado ali nas sombras e, a julgar pela forma
como me fitava com um olhar firme, curioso e inteligente, era eu quem estava entrando em seu
território. Era como se ele estivesse me dizendo: “Então, quem é você e o que o traz aqui?”.
Não pude resistir a me ajoelhar e me apresentar.
— Oi, companheiro. Eu nunca o vi antes, você mora aqui? — disse.
Ele apenas olhou para mim com a mesma expressão compenetrada e um pouco distante, como
se ainda estivesse me avaliando.
Decidi acariciar seu pescoço, em parte para ser amigável, mas também, em parte, para ver se
ele usava uma coleira ou qualquer forma de identificação. Era difícil ter certeza no escuro, mas
percebi que não havia nada, o que imediatamente me sugeriu que ele fosse um gato de rua. Londres
tinha mais do que sua justa cota deles.
Ele pareceu estar gostando do carinho e começou a se esfregar levemente contra mim.
Enquanto eu o acariciava um pouco mais, pude perceber que sua pelagem estava em mau estado,
com trechos irregulares sem pelos aqui e ali. Claramente, estava necessitando de uma boa refeição.
E, pela maneira como se esfregava contra mim, também precisava de uma boa dose de amor.
— Pobrezinho, acho que é um vira-lata. Ele não tem coleira e está muito magro — disse,
olhando para Belle, que me esperava pacientemente ao pé da escada.
Ela sabia que eu tinha um fraco por gatos.
— Não, James, você não pode ficar com ele — disse ela, apontando para a porta do
apartamento em frente à qual o gato estava sentado. — Ele não pode ter simplesmente aparecido
aqui e se acomodado nesse local. Deve pertencer a quem vive aí. Provavelmente está esperando
que a pessoa volte para casa e o deixe entrar.
Relutantemente, concordei com ela. Eu não podia simplesmente pegar um gato e levá-lo para
casa comigo, mesmo que todos os sinais indicassem que ele realmente não tinha um lar. Eu mal
havia me mudado para aquele lugar e ainda estava tentando arrumar meu apartamento. E se ele
pertencesse à pessoa que vivia naquele apartamento? Ela não encararia lá muito bem que alguém
levasse embora seu animal de estimação, não é?
Além disso, a última coisa de que eu precisava agora era da responsabilidade extra de um gato. Eu
era um músico fracassado e um viciado em drogas em recuperação, vivendo uma existência
precária em uma moradia subvencionada. Assumir a responsabilidade por minha própria vida já
era algo bastante difícil.
Na manhã seguinte, sexta-feira, fui até o térreo e encontrei o laranjinha ainda sentado no mesmo
lugar. Era como se ele não houvesse se movido daquele lugar nas últimas 12 horas ou mais.
Mais uma vez, caí de joelhos e o acariciei. Mais uma vez, ficou óbvio que ele adorava aquilo.
Companheiros de Viagem
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calma e imperturbável. Parecia estar muito bem acomodado ali nas sombras e, a julgar pela forma
como me fitava com um olhar firme, curioso e inteligente, era eu quem estava entrando em seu
território. Era como se ele estivesse me dizendo: “Então, quem é você e o que o traz aqui?”.
Não pude resistir a me ajoelhar e me apresentar.
— Oi, companheiro. Eu nunca o vi antes, você mora aqui? — disse.
Ele apenas olhou para mim com a mesma expressão compenetrada e um pouco distante, como
se ainda estivesse me avaliando.
Decidi acariciar seu pescoço, em parte para ser amigável, mas também, em parte, para ver se
ele usava uma coleira ou qualquer forma de identificação. Era difícil ter certeza no escuro, mas
percebi que não havia nada, o que imediatamente me sugeriu que ele fosse um gato de rua. Londres
tinha mais do que sua justa cota deles.
Ele pareceu estar gostando do carinho e começou a se esfregar levemente contra mim.
Enquanto eu o acariciava um pouco mais, pude perceber que sua pelagem estava em mau estado,
com trechos irregulares sem pelos aqui e ali. Claramente, estava necessitando de uma boa refeição.
E, pela maneira como se esfregava contra mim, também precisava de uma boa dose de amor.
— Pobrezinho, acho que é um vira-lata. Ele não tem coleira e está muito magro — disse,
olhando para Belle, que me esperava pacientemente ao pé da escada.
Ela sabia que eu tinha um fraco por gatos.
— Não, James, você não pode ficar com ele — disse ela, apontando para a porta do
apartamento em frente à qual o gato estava sentado. — Ele não pode ter simplesmente aparecido
aqui e se acomodado nesse local. Deve pertencer a quem vive aí. Provavelmente está esperando
que a pessoa volte para casa e o deixe entrar.
Relutantemente, concordei com ela. Eu não podia simplesmente pegar um gato e levá-lo para
casa comigo, mesmo que todos os sinais indicassem que ele realmente não tinha um lar. Eu mal
havia me mudado para aquele lugar e ainda estava tentando arrumar meu apartamento. E se ele
pertencesse à pessoa que vivia naquele apartamento? Ela não encararia lá muito bem que alguém
levasse embora seu animal de estimação, não é?
Além disso, a última coisa de que eu precisava agora era da responsabilidade extra de um gato. Eu
era um músico fracassado e um viciado em drogas em recuperação, vivendo uma existência
precária em uma moradia subvencionada. Assumir a responsabilidade por minha própria vida já
era algo bastante difícil.
Na manhã seguinte, sexta-feira, fui até o térreo e encontrei o laranjinha ainda sentado no mesmo
lugar. Era como se ele não houvesse se movido daquele lugar nas últimas 12 horas ou mais.
Mais uma vez, caí de joelhos e o acariciei. Mais uma vez, ficou óbvio que ele adorava aquilo.
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CAPÍTULO 1
Companheiros de Viagem
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Há uma citação famosa que li em algum lugar. Ela diz que recebemos segundas chances a cada dia
de nossas vidas. Elas estão ali para serem agarradas, só que não costumamos agarrá-las.
Passei grande parte da vida provando essa citação. Deram-me um monte de oportunidades, às
vezes a cada dia. Por um longo tempo, falhei em não agarrar nenhuma delas, mas depois, no início
da primavera de 2007, isso finalmente começou a mudar. Foi quando fiz amizade com Bob.
Olhando para trás, algo me diz que aquela pode ter sido a segunda chance dele também.
A primeira vez que o encontrei foi em uma sombria noite de quinta-feira, em março. Londres
ainda não havia se livrado do inverno e ainda havia um frio cortante nas ruas, especialmente
quando os ventos sopravam do Tâmisa. Havia até mesmo um indício de geada no ar naquela noite,
razão pela qual retornei para minha nova moradia subvencionada em Tottenham, no norte de
Londres, um pouco mais cedo do que o habitual, depois de um dia fazendo apresentações de rua na
região de Covent Garden.
Como sempre, trazia meu estojo de guitarra preto e a mochila pendurados nos ombros, mas
naquela noite também tinha comigo minha amiga mais próxima, Belle. Nós havíamos saído juntos
anos atrás, mas, agora, éramos apenas colegas. Pretendíamos comer alguma comida pronta e barata
com curry e assistir a um filme na pequena televisão em preto e branco que eu conseguira encontrar
em uma loja de caridade virando a esquina.
Como de costume, o elevador do prédio não estava funcionando. Por isso, dirigimo-nos para o
primeiro lance de escadas, resignados em encarar a longa subida até o quinto andar.
A lâmpada fluorescente no corredor estava queimada e parte do térreo estava imersa na
escuridão, mas, enquanto caminhávamos para a escada, não pude deixar de notar um par de olhos
brilhantes nas sombras. Quando ouvi um miado suave e ligeiramente melancólico, percebi o que
era.
Chegando mais perto, à meia-luz, vi um gato laranja enrolado sobre o capacho de um dos
apartamentos do andar térreo, no corredor que partia do corredor principal. Cresci em meio a gatos
e sempre tive certa queda por eles. Ao me mover até ele para olhá-lo melhor, constatei que se
tratava de um macho.
Eu não o havia visto antes perto dos apartamentos, mas, mesmo na escuridão, pude notar que
havia algo de especial nele. Eu já era capaz de afirmar que ele tinha certa personalidade. Ele não
estava nem um pouco nervoso; na verdade, era exatamente o oposto. Havia nele uma confiança
Companheiros de Viagem
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Há uma citação famosa que li em algum lugar. Ela diz que recebemos segundas chances a cada dia
de nossas vidas. Elas estão ali para serem agarradas, só que não costumamos agarrá-las.
Passei grande parte da vida provando essa citação. Deram-me um monte de oportunidades, às
vezes a cada dia. Por um longo tempo, falhei em não agarrar nenhuma delas, mas depois, no início
da primavera de 2007, isso finalmente começou a mudar. Foi quando fiz amizade com Bob.
Olhando para trás, algo me diz que aquela pode ter sido a segunda chance dele também.
A primeira vez que o encontrei foi em uma sombria noite de quinta-feira, em março. Londres
ainda não havia se livrado do inverno e ainda havia um frio cortante nas ruas, especialmente
quando os ventos sopravam do Tâmisa. Havia até mesmo um indício de geada no ar naquela noite,
razão pela qual retornei para minha nova moradia subvencionada em Tottenham, no norte de
Londres, um pouco mais cedo do que o habitual, depois de um dia fazendo apresentações de rua na
região de Covent Garden.
Como sempre, trazia meu estojo de guitarra preto e a mochila pendurados nos ombros, mas
naquela noite também tinha comigo minha amiga mais próxima, Belle. Nós havíamos saído juntos
anos atrás, mas, agora, éramos apenas colegas. Pretendíamos comer alguma comida pronta e barata
com curry e assistir a um filme na pequena televisão em preto e branco que eu conseguira encontrar
em uma loja de caridade virando a esquina.
Como de costume, o elevador do prédio não estava funcionando. Por isso, dirigimo-nos para o
primeiro lance de escadas, resignados em encarar a longa subida até o quinto andar.
A lâmpada fluorescente no corredor estava queimada e parte do térreo estava imersa na
escuridão, mas, enquanto caminhávamos para a escada, não pude deixar de notar um par de olhos
brilhantes nas sombras. Quando ouvi um miado suave e ligeiramente melancólico, percebi o que
era.
Chegando mais perto, à meia-luz, vi um gato laranja enrolado sobre o capacho de um dos
apartamentos do andar térreo, no corredor que partia do corredor principal. Cresci em meio a gatos
e sempre tive certa queda por eles. Ao me mover até ele para olhá-lo melhor, constatei que se
tratava de um macho.
Eu não o havia visto antes perto dos apartamentos, mas, mesmo na escuridão, pude notar que
havia algo de especial nele. Eu já era capaz de afirmar que ele tinha certa personalidade. Ele não
estava nem um pouco nervoso; na verdade, era exatamente o oposto. Havia nele uma confiança
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