CAPÍTULO 1
Companheiros de Viagem
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calma e imperturbável. Parecia estar muito bem acomodado ali nas sombras e, a julgar pela forma
como me fitava com um olhar firme, curioso e inteligente, era eu quem estava entrando em seu
território. Era como se ele estivesse me dizendo: “Então, quem é você e o que o traz aqui?”.
Não pude resistir a me ajoelhar e me apresentar.
— Oi, companheiro. Eu nunca o vi antes, você mora aqui? — disse.
Ele apenas olhou para mim com a mesma expressão compenetrada e um pouco distante, como
se ainda estivesse me avaliando.
Decidi acariciar seu pescoço, em parte para ser amigável, mas também, em parte, para ver se
ele usava uma coleira ou qualquer forma de identificação. Era difícil ter certeza no escuro, mas
percebi que não havia nada, o que imediatamente me sugeriu que ele fosse um gato de rua. Londres
tinha mais do que sua justa cota deles.
Ele pareceu estar gostando do carinho e começou a se esfregar levemente contra mim.
Enquanto eu o acariciava um pouco mais, pude perceber que sua pelagem estava em mau estado,
com trechos irregulares sem pelos aqui e ali. Claramente, estava necessitando de uma boa refeição.
E, pela maneira como se esfregava contra mim, também precisava de uma boa dose de amor.
— Pobrezinho, acho que é um vira-lata. Ele não tem coleira e está muito magro — disse,
olhando para Belle, que me esperava pacientemente ao pé da escada.
Ela sabia que eu tinha um fraco por gatos.
— Não, James, você não pode ficar com ele — disse ela, apontando para a porta do
apartamento em frente à qual o gato estava sentado. — Ele não pode ter simplesmente aparecido
aqui e se acomodado nesse local. Deve pertencer a quem vive aí. Provavelmente está esperando
que a pessoa volte para casa e o deixe entrar.
Relutantemente, concordei com ela. Eu não podia simplesmente pegar um gato e levá-lo para
casa comigo, mesmo que todos os sinais indicassem que ele realmente não tinha um lar. Eu mal
havia me mudado para aquele lugar e ainda estava tentando arrumar meu apartamento. E se ele
pertencesse à pessoa que vivia naquele apartamento? Ela não encararia lá muito bem que alguém
levasse embora seu animal de estimação, não é?
Além disso, a última coisa de que eu precisava agora era da responsabilidade extra de um gato. Eu
era um músico fracassado e um viciado em drogas em recuperação, vivendo uma existência
precária em uma moradia subvencionada. Assumir a responsabilidade por minha própria vida já
era algo bastante difícil.
Na manhã seguinte, sexta-feira, fui até o térreo e encontrei o laranjinha ainda sentado no mesmo
lugar. Era como se ele não houvesse se movido daquele lugar nas últimas 12 horas ou mais.
Mais uma vez, caí de joelhos e o acariciei. Mais uma vez, ficou óbvio que ele adorava aquilo.

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